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Por Amanda Pieranti

21/07/2010 - 23h55m  
 

A DOR DO OUTRO ME FAZ REVIVER DRAMAS PESSOAIS
E você?


Por Amanda Pieranti

Hoje, dia 21 de julho, passei, com um olhar mais atento, no Túnel Acústico próximo à Puc, no Rio de Janeiro, local em que foi atropelado o músico Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães, há dois dias. Estavam lá vestígios do que foi a fatalidade que mergulhou a família em um drama pessoal difícil de esquecer. O par de tênis do jovem skatista estava por lá, onde seu dono fora arremessado. Não estou aqui julgando de quem é a culpa. Estou aqui tentando compreender que dia após dia a gente presencia o sofrimento alheio, seja de famosos ou de pessoas comuns, noticiados na mídia. A dor do outro, certamente, me faz reviver dramas pessoais. Mas e você? Isso mexe contigo?

Por um, dois dias, semanas, dependendo do clamor da mídia, o assunto ficará na sua mente. Mas só viverá cada segundo de ausência do ente querido a família e amigos envolvidos. Família por um tempo, o núcleo mais próximo do que se foi por um tempo maior, mas a dor da mãe, esta será eterna a latejar em diversos momentos. O lamentar será impossível. As perguntas e porquês também. Eu vivi isso e revivo com esta família de forma contundente.

Meu irmão morreu aos 27 anos em um acidente de moto há quase três anos e não sei até hoje de quem foi a culpa. Isso me atormentou muito. Diminuiu um pouco querer saber a razão da partida súbita, mas volta e meia eu questiono como sido como se eu pudesse voltar no tempo e mudar o destino cruel.

Com o passar do tempo, a dor é maior só para a mãe. E aí não importa se ela é atriz, se é anônima. A dor será a maior protagonista de quem tinha como o companheiro mais próximo o caçula. "A vida não é feita somente de maravilhas. Há dramas também como esse que estamos vivendo agora", falou, algo parecido, o filho mais velho da atriz, Thomaz. Fiquei refletindo e é verdade. Ele demonstra ser o mais forte. Mas nem por isso deixa de sofrer. Acho que o pior é ver o sofrimento da mãe e não poder fazer nada, absolutamente nada.

Ah, como eu queria ser mulher maravilha! Dar um choque e tirar todos de uma vez do pesadelo. Mas iria furtá-los das boas recordações e momentos únicos que a lembrança, dor alguma consegue apagar. Por enquanto a dor é dilacerante, como diz a irmã por parte de pai, a cantora Mariana Belém. Palavra mais forte, que dá a dimensão do corte profundo que começa na cabeça e para justamente no coração.

Quando escuto ou presencio dramas deste tipo, eu tenho muita vontade de ser o ouvido de quem chora seu pranto. Porque depois de algum tempo, a vida dos amigos continua, quase ninguém mais liga, o mundo volta a ser o mesmo, porque não é por causa de mais uma morte que ele para. Queria ser o ombro amigo, porque depois de um tempo, pouco, a gente até se choca, são poucos que conseguem ouvir o nosso pranto. A cruel forma de relembrar o fatídico dia, tentando entender os porquês e o que houve, já é um disco quebrado na antiga vitrola que nos torna chatos.

O processo é o mesmo para todos, porque há uma razão somente: somos mortais! Não seremos a primeira nem última família a viver esta dor. É por isso que eu peço para que todos reflitam: e você? Você está realmente sendo solidário com o problema alheio? Não que precise estender os ouvidos somente nessa hora, a pior de todas, certamente, a da separação eterna, mas nos momentos difíceis? A dor do outro foi se tornando a minha dor também. E assim a gente fica mais humano. Eu acho, ou melhor, tenho tentado... Aos familiares da Cissa, não vou dizer o clichê "Só o tempo para curar!", porque odiava ouvir isso. Deus, não há tempo que cure isso. Alivia, verdade. A gente volta a sorrir, pode acreditar, mas ninguém é mais o mesmo. Muda-se por dentro e por fora...



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